CUIDADO! Este blog é só pra OMES ja crescidos! Tirando apenas estas excepções:

o ZÉ TOLAS, que é baixinho,
o OME DO MONTE, que ainda não chegou lá,
o QUIM PESCAS, que já nasceu grande,
o TONE BOSTAS, que em vez de lá chegar deu uma cabeçada,
e o LA BOUSSE, que nos mandou a todos à la merde.







29/01/2008

AS OMAVENTURAS

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MAS QUE DOR DE CABEÇA DESCOMUNAL. QUIM ainda cabeceava contra a parede, tonto, embriagado pelo efeito das horas de frio que passou no mar à deriva, e também pelos medicamentos que lhe enfiaram no corpo em jejum – só tinha meras recordações do que se passara. Fora levado para um hospital dentro de um helicóptero por pessoas desconhecidas – nem se conseguia mexer, tal era a fadiga. Durante toda a consulta de um indivíduo de bata branca, dois ou três capangas de preto observavam, e, depois de lhe injectarem qualquer coisa, apagou por completo.

Agora estava numa espécie de cela. Só tinha uma sanita, um lavatório, uma cama sem lençóis e as suas botas novas, a um canto. Arrumado como uma mercadoria fora de prazo, ali se aguentava o QUIM PESCAS, e, devido aos químicos anestésicos, manso como um cordeiro. Tentara-se levantar inúmeras vezes mas em vão – caía redondo no chão, sem forças e a revirar os olhos, como num belo par de bebedeiras que já apanhou quando era mais jovem. Onde raio é que estava? O que se passara?

De olhos fechados, porque inexplicavelmente lhe ardiam, só identificava os sons à sua volta. O ar condicionado. Descargas de água que passavam em canalização vizinha àquelas quatro paredes. O toque interminável da pulsação de um mecanismo qualquer. Um elevador que ganhava vida de vez em quando.

QUIM calculou que estava num sítio movimentado. Mas mais que isso, não sabia. O que era feito das pessoas que o trouxeram? Estaria num manicómio? Será que havia enlouquecido sem dar por isso? Será que, se estivesse louco, tinha consciência de o estar ou não?

Alto lá. Sons. Passos! Esforçou-se por abrir os olhos quando ouviu a fechadura da porta a rodar o seu engenho. Três matulões de óculos escuros e fatos pretos entraram no seu restrito cubículo, fechando a porta atrás de si. Guardaram os óculos ao mesmo tempo e sorriram, com sorrisos orientais, de olhos em bico, tez amarela, e cabelo raso, se é que algum.

Chineses. QUIM esforçou-se por ver melhor, duvidoso.

“Hã?”, disse para si, “Onde raio é que eu vim parar? À China?”

Eles sorriram. “Daqui a pouco tempo todo o mundo será a China”, disse um deles. Os outros deram-lhe um olhar descriminador.

“CALA-TE, MING FU, AQUI QUEM FALA SOU EU!”

O QUIM estava cada vez mais confuso. Agora falavam português na China? O indivíduo mandão olhou-o de alto a baixo e depois arrebitou cachimbo, ou melhor, flor de lótus.

“Que fazias no mar ontem?”

QUIM PESCAS não tinha medo deles e fazia tenção de o demonstrar.

“Fazia que fazia o que fazia.”

“O que fazias?”

“Que fazia.”

“Que fazias o quê?”

“Fazia que fazia.”

“Fazias que fazias O QUÊ?”

“Já lhe disse, estava a FAZER que FAZIA.”

O chino passou-se.

“ESTÁS A GOZAR COMIGO? O QUE É QUE SABES? QUEM TE MANDOU IR LÁ? PORQUE É QUE NÃO ESTAVAS NO FUNERAL DO TONE DA SILVA?”

Agora apeteceu ao QUIM, assim como quem não quer a coisa, saber quanto português é que eles conheciam. Respirou fundo, olhou o outro nos olhos, que eram dois, e puxou pelas suas melhores palavras.

“O triste e mórbido luto religioso pelo inóspito falecimento do meu alegre, qual sagaz e dotado de siso compincha, camarada ilustre do duro ofício piscatório, exigiu, em suma, que o exemplificasse moral e fisicamente ao nosso Pai, e como tal, fez de mim fiel servidor da sua arte de efectuar, dentro das condições climatéricas apropriadas, a colecta vespertina dos seres vivos dotados de barbatanas, pobres criaturas. E pronto, lá fui eu exercer a minha demanda diária, mas desta vez no dia em que mais nenhum dos da minha humilde comunidade foi.”

O chinês, pelos vistos, não tinha percebido NADA.

“VOLTA A DIZER! MAS MAIS DEVAGAR!”

“Eu já expliquei, OI! A CULPA NÃO É MINHA SE NÃO PERCEBERAM! O QUE É QUE QUEREM DE MIM, CARAS DE LIMÃO? IDE VENDER ESPADAS DE PLÁSTICO AOS PUTOS QUE É O QUE VOCÊS FAZEM BEM!”

O chinês ia encher o QUIM de nódoas negras se o Ming Fu não lhe tocasse no ombro. Disse-lhe qualquer coisa em chinês ao seu ouvido. Este sorriu.

“Nós vamos voltar daqui a pouco, e quando voltarmos, vamos trazer o nosso patrão. É só esperares um bocadinho e a nossa ordem para não te fazer mal… altera-se como que por magia.”

Rindo, e dizendo barbaridades lá na sua língua mãe, abandonaram a sala. QUIM PESCAS engoliu em seco. Quem o mandou ser tão chico esperto?


Num casarão que ainda desconhecemos, tocou o telefone. Toca ele uma vez, toca ele duas, toca três, e eis que finalmente alguém se dignou a levantar para o atender. E apareceu uma cozinheira, com a colher de pau na mão e tudo, chateada de terem interrompido o nada que estava a fazer naquele preciso momento.

“Está lá?”

A voz do outro lado era rápida e concisa. A da cozinheira era ainda mais rápida. Posicionou-se logo em posição de sopeira coscuvilheira e debitou as palavras como quem fala da vida alheia.

“Ah, não, neste momento ele não está aqui. Está na lavoura da Adelina, lá em baixo, está a ver, de quem vem da igreja e vira à esquerda, é mesmo em frente, nos diospireiros da Adelina. Você nem imagina a vontade que o OME tem de tratar deles! Eu já disse repetidas vezes que aquela semente não ia dar em nada mas o OME insiste, insiste, ai como ele é casmurro, valha-me o senhor…”

O seu interlocutor disse cerca de três palavras.

“Sim, está bem”, disse ela, incomodada por a terem interrompido, e ainda mais incomodada por ser tão abruptamente mandada para calar a matraca, “Então eu mando o puto ir lá ter com ele para o chamar.”

Do outro lado o indivíduo aceitou.

“Ó BISCAS! ANDA CÁ MALANDRO!”

Do fim do mundo veio um puto a correr, como se correr fosse tudo o que ele queria fazer da vida, ou então com medo de levar uma açorda.

“VAI CHAMAR O OME À LAVOURA! DIZ QUE TEM UM TAL DE ZÉ TOLAS AQUI AO TELEFONE PARA FALAR COM ELE!”

O puto ouviu e zarpou dali para fora. Atravessou a sala, a varanda, o quintal, a horta, o passeio das laranjeiras, o lamaçal, as videiras, a outra horta, atravessou o quintal do vizinho, continuou a correr, desviou-se das galinhas que esvoaçaram feitas tolas, saltou por cima do muro e esbarrou-se numa vaca que estava de passagem.

Caiu no chão. A vaca olhou-o de cima a baixo. Ele olhou-a de baixo para cima. A vaca ignorou-o e continuou a pastar. Ele lá continuou a correr.

Saltou, finalmente, por cima do muro da propriedade do vizinho, e chegou às terras da senhora Adelina, onde encontrou um OME curvado a lavrar com a enxada naquela terra preta e nutritiva.

“Se- se- senhor…”, disse o Biscas, afogueado, a tentar recuperar a respiração, “Tem uma chamada para si!”

“OI! UMA CHAMADA PARA MIM?”, perguntou o OME DO MONTE.

(…)

E não percam a próxima OMAVENTURA, dia 12 de Fevereiro!

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