ZÉ TOLAS nunca gostou muito de viver naquela imensa metrópole, à qual alguém deu o nome de CIDADE CAPITAL. Viver na CAPITAL é um fardo, quanto mais não seja viver sozinho – se há coisa que o ZÉ TOLAS detesta é de ter de atravessar a selva quotidiana de si e para consigo. E, ainda para mais, ter de o fazer à chuva, como hoje, é o cúmulo.
NA AVENIDA milhares de pessoas passam diariamente, umas só por uma vez, outras acostumadas ao ritmo de anos e anos a subir e a descer as calçadas sujas perante paredes sarapintadas de arte urbana; habituadas a esperar em trinta sádicos sinais vermelhos antes de qualquer destino, ou ainda aguardar com paciência de Jó que atravessem correntes de peões nas passadeiras gastas, de paralelos velhos, de barulho, inquietação, frio, mendigos, carteiristas, oportunistas, políticos, donas de casa, mulheres a dias, mulheres da noite, jovens da geração amorangada, jovens da geração azeiteira e jovens mistos, já para não falar dos que não são de nenhuma e roubam em lojas de chineses, que por sua vez são acusados de tráfico de órgãos quando o seu maior crime é não falar português em terra de portugueses que já nem português falam.
É nesta mesma AVENIDA que encontramos o ZÉ TOLAS. São sete da manhã, mas tendo em conta o nevoeiro, a quantidade de luz e gente que circula, bem podiam ser sete da noite num dia claro.
Lá vai ele para o trabalho. Já não é o seu primeiro trabalho, ou emprego – já nem é o vigésimo também. O pessoal queixa-se de desemprego mas não sabe que basta um pouco de sacrifício, sabão, barba feita e tento na língua que qualquer indivíduo chega lá. Nem que seja para empregado de limpeza e de arrumação. Nem que seja aos cinquenta anos. Nem que seja o ZÉ TOLAS que aqui vemos,
O ZÉ TOLAS,
Um gajo calvo, lá para o seu metro e cinquenta de altura, com saudades dos tempos em que tinha a vida pela frente…
Neste mundo em que muitos a têm por trás.
Apanhou o autocarro número tal tal para o destino tal tal tal, já nem os memoriza, é tudo automático, maquinal, igual, dia após dia, feriado após ponte, no mundo moderno em que o futebol predomina e o dinheiro domina santos e pecadores. Senta-se perto de uma janela fria e espera que o condutor arranque lá o motor da geringonça onde passa os dias, religiosamente, antes de chegar ao trabalho, e antes de chegar a casa. Passou pelas brasas, mesmo neste dia frio, e acordou na paragem tal tal tal, onde entraram tantas pessoas, incluindo o tantos de tal, o fulano e o sicrano, o branco e o preto, a velha e a nova, o cão da última e o periquito da penúltima.
A muito custo saiu o ZÉ TOLAS da espelunca com rodas e olhou para cima. Tinha chegado, mais ou menos um ano depois de lá começar a trabalhar, à imensa sede da Ping Digitália –
Sim, sede, mesmo à chuva –
Onde ia passar mais oito horas da sua vida a organizar caixotes pelos três primeiros números dos seus registos e pelas três últimas letras da sua secção, lá para a ala onde tanto suor se lhe pingou… na Ping, Ping, Ping, sempre a Ping, se caísse um trovão, havia de ser na ping, e nós Ping, lá foi a Ping. E Ping, Ping, que chove.
Correu para o átrio do primeiro prédio e sacou do papelzinho que traz consigo, todos os dias, no qual, em caligrafia sua, estão uns números estranhos…
29, 2, 34, 3, Est, 21, 3, 4, 2.
Os mesmos números que o informam que tem de se dirigir à rua 29, bloco 2, entrar no elevador e subir ao piso 34, andar até à ala 3, que fica a Este, contar os corredores até ao 21, entrar no balneário 3, abrir o cacifo da coluna 4 e linha 2, onde tem, muito bem guardado, o seu uniforme, que lava todas as quinzenas. Pela altura do seu mamilo esquerdo, apresenta-se uma etiqueta beije orgulhosa, que diz
“ZÉ TOLAS, Funcionário”
E resume a sua vida toda.
Mas bem, o que se sucedeu é o seguinte: ele enganou-se no papel que tirou do bolso. Tirou um com os números do Euromilhões da semana passada. A coincidência é estar escrito no mesmo tipo de post-it, dos que trazem o símbolo dos “Limpa-chaminés Rudolfo & Primos”, com o mesmo lápis, com a mesma organização dos números, tirando o “Est”, que desta vez antecede os números das estrelas:
12, 32, 22, 4, 1, 18, Est, 6, 9.
Como é óbvio, tal é a rotina que o ZÉ TOLAS nem reparou, e a princípio nem olhou para o papel, o autocarro deixou-o na rua certa e ele foi logo para o bloco certo. Depois, em vez de subir para o andar do costume, subiu ao vigésimo segundo…
Que era tal e qual o outro. As novas empresas têm o condão de ter empregados todos iguaizinhos, de tal forma que o nosso funcionário foi à sua vida como se nada fosse. Coincidência foi haver uma quarta ala.
Quanto a ir para a área Este dessa mesma ala… já foi ele que seguiu pelo hábito. E foi ao corredor 18, que curiosamente tinha um balneário no mesmo local de sempre, um balneário igualzinho… foi aos cacifos, contou as colunas até à sexta e as linhas até à nona, sem nunca se questionar se estava a fazer o que era certo, uma vez que todo o seu corpo estava em “piloto automático”.
Outra coincidência fenomenal: a porta do cacifo dele (que nós sabemos não ser o dele) estava aberta, e lá estava um uniforme semelhante ao seu. Vestiu-o, e ajeitou-o, respirando fundo antes de abandonar o balneário…
Com o uniforme do “João Vítor, Funcionário de Limpeza.”
Virou à esquerda, direita, direita, esquerda, deu os bons-dias a uns quantos homens de negro, que por acaso não estava bem a ver quem eram, e entrou na divisão onde costuma entrar.
E agora, FINALMENTE, apercebeu-se de que alguma coisa estava mal. Aquilo não fazia lembrar a sala dos arrumos onde exerce o seu dever. Era uma oficina, que estava deserta, com as luzes desligadas, e nas bancas vidros por limar, madeiras por serrar, serrim pelo chão, plainas e chaves de fendas penduradas em painéis com pregos, tudo material que nunca tinha visto na vida. ZÉ TOLAS sentou-se numa cadeira que por lá estava abandonada e procurou perceber o que acontecera, onde é que metera o pé na argola desta vez.
Mas antes de se concentrar no problema ouviu vozes. Uma das quais era aguda, estridente, irritante, e ele reconheceu-a como sendo a do seu patrão. Só o tinha visto uma vez, e fora no noticiário. O dono da Ping Digitália, a famosíssima empresa de componentes digitais sediada em Portugal, era um chinês, chamado Ping Li Pong. ZÉ TOLAS aproximou-se. Podia pedir desculpa pelo engano. Sempre podia pedir desculpa, pensou.
As vozes subiam de tom.
“Al Abalah, você GARANTIU-ME de que NENHUM PESCADOR IA ESTAR AO LARGO NESSA ZONA NO DIA DE ONTEM! QUE DEMÓNIOS fazia esse indivíduo NA MINHA ÁREA DE TESTE PRIMÁRIA?”
O interlocutor de Ping Li Pong, um árabe, procurava responder, embora gaguejasse devido à pressão que o outro lhe punha em cima.
“Se- Se- Senhor, não sei, por Alá, não acabe comigo, os meus espiões garantiram que todos os pescadores iriam ao funeral do outro que bateu a bota…”
“MAS ISSO NÃO FOI SUFICIENTE, POIS NÃO?”, vociferou o outro, “AGORA A POLÍCIA VAI ANDAR A FAZER BUSCAS NA ZONA, COMO É ÓBVIO!”
“A- A- Ainda podemos corrigir isto, se- se- senhor Ping…”
“ESPERO BEM QUE SIM, SENÃO A SUA CABEÇA VAI ROLAR!”, rosnou Ping Li Pong, “A SUA E A DESSE PESCADOR!”
ZÉ TOLAS estava já de cócoras sob uma estação de trabalho. Ouvira cada palavra, cada respiração, quase sentia o medo de Al Abalah e a fúria de Ping Li Pong estremecia até as lâminas de cortar o vidro. Já não iria pedir desculpas pelo seu engano. Arriscava, não só o emprego, mas também o pescoço.
“COMO SE CHAMA O GAJO? QUE É FEITO DELE?”
Al Abalah tremia a mexer nuns papéis que suara completamente durante a discussão.
“Está numa das nossas salas de contenção… está a soro, a recuperar… chama-se… chama-se, deixe-me ver… ah. Chama-se QUIM PESCAS.”
(…)
Não percam o próximo OMIPISÓDIO, a 29 de Janeiro, que nós também não!
NA AVENIDA milhares de pessoas passam diariamente, umas só por uma vez, outras acostumadas ao ritmo de anos e anos a subir e a descer as calçadas sujas perante paredes sarapintadas de arte urbana; habituadas a esperar em trinta sádicos sinais vermelhos antes de qualquer destino, ou ainda aguardar com paciência de Jó que atravessem correntes de peões nas passadeiras gastas, de paralelos velhos, de barulho, inquietação, frio, mendigos, carteiristas, oportunistas, políticos, donas de casa, mulheres a dias, mulheres da noite, jovens da geração amorangada, jovens da geração azeiteira e jovens mistos, já para não falar dos que não são de nenhuma e roubam em lojas de chineses, que por sua vez são acusados de tráfico de órgãos quando o seu maior crime é não falar português em terra de portugueses que já nem português falam.
É nesta mesma AVENIDA que encontramos o ZÉ TOLAS. São sete da manhã, mas tendo em conta o nevoeiro, a quantidade de luz e gente que circula, bem podiam ser sete da noite num dia claro.
Lá vai ele para o trabalho. Já não é o seu primeiro trabalho, ou emprego – já nem é o vigésimo também. O pessoal queixa-se de desemprego mas não sabe que basta um pouco de sacrifício, sabão, barba feita e tento na língua que qualquer indivíduo chega lá. Nem que seja para empregado de limpeza e de arrumação. Nem que seja aos cinquenta anos. Nem que seja o ZÉ TOLAS que aqui vemos,
O ZÉ TOLAS,
Um gajo calvo, lá para o seu metro e cinquenta de altura, com saudades dos tempos em que tinha a vida pela frente…
Neste mundo em que muitos a têm por trás.
Apanhou o autocarro número tal tal para o destino tal tal tal, já nem os memoriza, é tudo automático, maquinal, igual, dia após dia, feriado após ponte, no mundo moderno em que o futebol predomina e o dinheiro domina santos e pecadores. Senta-se perto de uma janela fria e espera que o condutor arranque lá o motor da geringonça onde passa os dias, religiosamente, antes de chegar ao trabalho, e antes de chegar a casa. Passou pelas brasas, mesmo neste dia frio, e acordou na paragem tal tal tal, onde entraram tantas pessoas, incluindo o tantos de tal, o fulano e o sicrano, o branco e o preto, a velha e a nova, o cão da última e o periquito da penúltima.
A muito custo saiu o ZÉ TOLAS da espelunca com rodas e olhou para cima. Tinha chegado, mais ou menos um ano depois de lá começar a trabalhar, à imensa sede da Ping Digitália –
Sim, sede, mesmo à chuva –
Onde ia passar mais oito horas da sua vida a organizar caixotes pelos três primeiros números dos seus registos e pelas três últimas letras da sua secção, lá para a ala onde tanto suor se lhe pingou… na Ping, Ping, Ping, sempre a Ping, se caísse um trovão, havia de ser na ping, e nós Ping, lá foi a Ping. E Ping, Ping, que chove.
Correu para o átrio do primeiro prédio e sacou do papelzinho que traz consigo, todos os dias, no qual, em caligrafia sua, estão uns números estranhos…
29, 2, 34, 3, Est, 21, 3, 4, 2.
Os mesmos números que o informam que tem de se dirigir à rua 29, bloco 2, entrar no elevador e subir ao piso 34, andar até à ala 3, que fica a Este, contar os corredores até ao 21, entrar no balneário 3, abrir o cacifo da coluna 4 e linha 2, onde tem, muito bem guardado, o seu uniforme, que lava todas as quinzenas. Pela altura do seu mamilo esquerdo, apresenta-se uma etiqueta beije orgulhosa, que diz
“ZÉ TOLAS, Funcionário”
E resume a sua vida toda.
Mas bem, o que se sucedeu é o seguinte: ele enganou-se no papel que tirou do bolso. Tirou um com os números do Euromilhões da semana passada. A coincidência é estar escrito no mesmo tipo de post-it, dos que trazem o símbolo dos “Limpa-chaminés Rudolfo & Primos”, com o mesmo lápis, com a mesma organização dos números, tirando o “Est”, que desta vez antecede os números das estrelas:
12, 32, 22, 4, 1, 18, Est, 6, 9.
Como é óbvio, tal é a rotina que o ZÉ TOLAS nem reparou, e a princípio nem olhou para o papel, o autocarro deixou-o na rua certa e ele foi logo para o bloco certo. Depois, em vez de subir para o andar do costume, subiu ao vigésimo segundo…
Que era tal e qual o outro. As novas empresas têm o condão de ter empregados todos iguaizinhos, de tal forma que o nosso funcionário foi à sua vida como se nada fosse. Coincidência foi haver uma quarta ala.
Quanto a ir para a área Este dessa mesma ala… já foi ele que seguiu pelo hábito. E foi ao corredor 18, que curiosamente tinha um balneário no mesmo local de sempre, um balneário igualzinho… foi aos cacifos, contou as colunas até à sexta e as linhas até à nona, sem nunca se questionar se estava a fazer o que era certo, uma vez que todo o seu corpo estava em “piloto automático”.
Outra coincidência fenomenal: a porta do cacifo dele (que nós sabemos não ser o dele) estava aberta, e lá estava um uniforme semelhante ao seu. Vestiu-o, e ajeitou-o, respirando fundo antes de abandonar o balneário…
Com o uniforme do “João Vítor, Funcionário de Limpeza.”
Virou à esquerda, direita, direita, esquerda, deu os bons-dias a uns quantos homens de negro, que por acaso não estava bem a ver quem eram, e entrou na divisão onde costuma entrar.
E agora, FINALMENTE, apercebeu-se de que alguma coisa estava mal. Aquilo não fazia lembrar a sala dos arrumos onde exerce o seu dever. Era uma oficina, que estava deserta, com as luzes desligadas, e nas bancas vidros por limar, madeiras por serrar, serrim pelo chão, plainas e chaves de fendas penduradas em painéis com pregos, tudo material que nunca tinha visto na vida. ZÉ TOLAS sentou-se numa cadeira que por lá estava abandonada e procurou perceber o que acontecera, onde é que metera o pé na argola desta vez.
Mas antes de se concentrar no problema ouviu vozes. Uma das quais era aguda, estridente, irritante, e ele reconheceu-a como sendo a do seu patrão. Só o tinha visto uma vez, e fora no noticiário. O dono da Ping Digitália, a famosíssima empresa de componentes digitais sediada em Portugal, era um chinês, chamado Ping Li Pong. ZÉ TOLAS aproximou-se. Podia pedir desculpa pelo engano. Sempre podia pedir desculpa, pensou.
As vozes subiam de tom.
“Al Abalah, você GARANTIU-ME de que NENHUM PESCADOR IA ESTAR AO LARGO NESSA ZONA NO DIA DE ONTEM! QUE DEMÓNIOS fazia esse indivíduo NA MINHA ÁREA DE TESTE PRIMÁRIA?”
O interlocutor de Ping Li Pong, um árabe, procurava responder, embora gaguejasse devido à pressão que o outro lhe punha em cima.
“Se- Se- Senhor, não sei, por Alá, não acabe comigo, os meus espiões garantiram que todos os pescadores iriam ao funeral do outro que bateu a bota…”
“MAS ISSO NÃO FOI SUFICIENTE, POIS NÃO?”, vociferou o outro, “AGORA A POLÍCIA VAI ANDAR A FAZER BUSCAS NA ZONA, COMO É ÓBVIO!”
“A- A- Ainda podemos corrigir isto, se- se- senhor Ping…”
“ESPERO BEM QUE SIM, SENÃO A SUA CABEÇA VAI ROLAR!”, rosnou Ping Li Pong, “A SUA E A DESSE PESCADOR!”
ZÉ TOLAS estava já de cócoras sob uma estação de trabalho. Ouvira cada palavra, cada respiração, quase sentia o medo de Al Abalah e a fúria de Ping Li Pong estremecia até as lâminas de cortar o vidro. Já não iria pedir desculpas pelo seu engano. Arriscava, não só o emprego, mas também o pescoço.
“COMO SE CHAMA O GAJO? QUE É FEITO DELE?”
Al Abalah tremia a mexer nuns papéis que suara completamente durante a discussão.
“Está numa das nossas salas de contenção… está a soro, a recuperar… chama-se… chama-se, deixe-me ver… ah. Chama-se QUIM PESCAS.”
(…)
Não percam o próximo OMIPISÓDIO, a 29 de Janeiro, que nós também não!


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