Em redor de uma rede gigante, quatro ou cinco OMES conversavam. Eram, claramente, pescadores – da robusta espécie dos velhos lobos-do-mar, a julgar pelas mãos fortes: pele quase de couro de tão calejadas; mais o bronzeado, os pêlos aloirados de tanto lhes dar o sol, cabelo maltratado e dentes em falta. Neste dia do Senhor em que os encontramos, porventura a remendar a rede com a qual ganham o pão-nosso, não falavam das novas lei da pesca ou do que calha terem fisgado ao mar em quilos salgados de pescada, sardinha, carapau ou até peixe-espada e raia; neste caso, o assunto é sério, tão sério como a tempestade furiosíssima que viam no horizonte, ruim até de se ver.
“EM VERDADE VOS DIGO, CAMARADAS, a ti, Zé, mais tu Carlos, e também tu, Manel, estas tempestades não são obra de Deus. Há por aí mão de homem, ó. Não, não. Não me fio nessas tretas de superstições, isso é para o mulherio. Passam tanto tempo em casa que começam a atrofiar com espíritos e coisas assim. Isto não. Isto é mão de cinco dedos, olhem para o que aqui o Fumigas vos diz. Não duro muito, mas sei o que digo. Já nem me faço ao mar, estou agora para aqui caído a um canto e não ponho a vista nos motores que me pertencem por vários dias de cada vez, mas sei do que falo, e não sou um falinhas mansas tampouco.”
O OME que disse estas palavras era, de entre eles, aquele no qual as características de OME DO MAR mais se acentuavam. Podemo-lo considerar o sábio, o dono dos barcos em que trabalhavam, ou seja, o patrão – ou até o avô daquela família, se é que isto é uma família. Todos o escutavam com consideração e respeito. O outro OME, o tal que se chamava Zé, levantou os olhos para o mar, um pouco desconfortado pelos pensamentos que pairavam entre eles e pelo vendaval que varria as ondas lá para o fundo.
“Mas, ó ti Fumigas”, começou ele, e empregou o vocabulário que usam no telejornal, que por vezes se torna útil, “então quem são os suspeitos de culpado? E os arguidos de defesa, já apareceram? Quem é o homicida precisado?”
Os outros abanaram as cabeças, santa paciência. Houve até quem se risse.
“TÁ CALADO, ZÉ, E OMICIDA É QUEM MATA UM OME!”, irrompeu o Manel, sem perder tempo, “NÃO VÊS QUE A CONVERSA É DE GENTE GRANDE?”
E logo disse o Tó, do seu canto:
“AH POIS É! É UMA CONVERSA DE OMES!”
Ao que o Zé não teve remédio, teve de assentir e encolher a cabeça. Assim que este se calou, o silêncio deu a palavra ao Fumigas, que se preparava para falar e dizer algo digno de ser dito.
“Não gosto do que se anda por aqui a passar. Não sou abutre que deseje o mau agoiro de toda a gente, mas também não sou nenhum pinto que para aí ande a esgadanhar o bico na bosta dos outros. OMES, isto cá para mim cheira-me a esturro, e daqueles que cheiram pouco, mas são grandes esturricados quando chega a hora de os ver. Sei que hoje não há ninguém no mar, em honra do velho Tone da Silva, que morreu esta quinta, sei disso, e isso agrada-me, pois cá para mim, hoje de manhã, senti um arrepio, daqueles que são a parte agoirenta em mim, daqueles que me dizem que algo ruim está prestes a acontecer, e logo hoje! Mas estou tranquilo, sim, estou tranquilo, nenhum dos meus moços pôs o pé na água hoje nem há-de pôr! Honra seja feita ao Tone da Silva! Qualquer dia junto-me eu a ele, e aos OMES que já abalaram deste mundo para um melhor. Muitos deles eram meus amigos, e eu próprio já me sinto com um pé dentro e outro fora.”
“Ó ti Fumigas, acalme-se, o ti está é nervoso! Veja lá o que diz! Não misture uma coisa com a outra! Lá porque o seu amigo Tone da Silva foi para as lotas do Criador, e lá porque está ressentido com isso e tem maus presságios ao acordar, não dramatize tudo ao ponto de dizer que haverão terrores no mar! Isso é você, que está há mais de vinte anos em terra, e julga que o mar é um bicho-de-sete-cabeças!”
Fumigas deu um olhar triunfante ao Manel.
“Aí é que está, Manel. O mar É um bicho-de-sete-cabeças.”
Assim que se gerou o silêncio de novo, e os OMES se concentraram na sua porção da rede de pesca, que desemaranhavam, um OME lá mais para diante resolveu dizer algumas coisas de sua justiça.
“Ó ti Fumigas, então o que faz o QUIM PESCAS no mar a esta hora?”
Petrificaram todos. Olharam para o ti Fumigas, com receio pela sua saúde, e o Manel saltou-lhe para cima no segundo seguinte, porque o velho tombou para o chão, aparvalhado da vida. Manel não aguentou sem desatar a berrar com o outro imbecil.
“OLHA O QUE DIZES! ALGUÉM TE ENCOMENDOU O SERMÃO? NÃO TE PROIBIRAM DE FALAR NO QUIM PESCAS EM FRENTE AO TI FUMIGAS?”
O descuidado ficou pálido.
“Tinha-me esquecido.”
Fumigas tossia e balbuciava, dizendo:
“Maldição! A desgraça abateu-se sobre a nossa terra! Que o QUIM PESCAS não vá de encontro ao Pai de Todas as Coisas antes de mim! Se não fizer, é bom que eu morra, porque senão eu próprio o matarei! Não foi ele avisado do dia de luto? NÃO FOI?”
Voltou a sentar-se, a muito custo, com o coração septuagenário aos pulos. Manel tentou reconfortá-lo, lançando um olhar de raiva para o filho da grandessíssima que teve a brilhante ideia de dizer aquilo da boca para fora.
“Ti Fumigas, tenha lá calma, o QUIM vai voltar seguro. Vamos à cerimónia honrar o Tone da Silva. Não pense no QUIM. Ele é um valdevino. Deixe-o onde ele está. Não foi por falta de aviso.”
“E porque está ele lá, Manel? Diz-me porquê”, disse Fumigas, muito mais paciente, como se os seus reminiscentes batimentos cardíacos ainda procurassem uma razão no meio daquilo tudo.
O Manel, lá tinha de ser, disse a verdade que escondera do velho.
“Pelo que ele me disse, não é sentados nos bancos da igreja que vamos honrar o OME que perdemos, mas sim no alto-mar a fazer o que fazemos melhor. Ele não foi ao mar para pescar. Foi prestar uma homenagem.”
QUIM PESCAS JÁ ESTAVA TODO ENCHARCADO, e lá voava, como os pescadores podem voar, por entre o mar em tempestade vinda do Inferno, nos altos mares de que todos falam e sobre os quais muitos outros têm pesadelos, entre o barulho e o horror. Dançava amarrado aos cabos que conseguia manter na mão, sempre entre o abismo e o abrigo; e o mar, em fúria, tentava despedaçar-lhe a embarcaçãozinha, aquela mesma que trazia, a letras garrafais, escrito, na lateral do casco:
“LINDONA MARIA”
E NÃO HÁ MANEIRA DE CHAMAR AJUDA, NÃO HÁ TEMPO SEQUER PARA LIGAR O RÁDIO DE BORDO, DE DESCALÇAR AS BOTAS OU ATÉ MESMO DE VESTIR UM COLETE SALVA-VIDAS, a tempestade é tão estupidamente violenta que QUIM PESCAS só consegue dizer adeus à sua LINDONA MARIA com a qual apanhou tanto peixe e rezar um pai-nosso, e seja feita a sua vontade, lá com estas tempestades não consegue um OME safar-se, raios partam lá o OME que governa tudo. COMOVIDO E CONFORMADO, BRADOU QUIM PESCAS AOS SETE VENTOS:
“ADEUS MUNDO, ADEUS MAR, ADEUS LINDONA! ADEUS AOS OMES DO MAR, ADEUS AOS MEUS OMES DA TERRA!”
QUIM só teve tempo de vislumbrar uma grandessíssima onda a abater-se sobre si antes de perder os sentidos.
(…)
Nós só saberemos o que aconteceu ao QUIM PESCAS no segundo episódio das OMAVENTURAS, que será aqui publicado no dia 15 de Janeiro!
NÃO PERCAM O PRÓXIMO OMIPISÓDIO, QUE NÓS TAMBÉM NÃO!
“EM VERDADE VOS DIGO, CAMARADAS, a ti, Zé, mais tu Carlos, e também tu, Manel, estas tempestades não são obra de Deus. Há por aí mão de homem, ó. Não, não. Não me fio nessas tretas de superstições, isso é para o mulherio. Passam tanto tempo em casa que começam a atrofiar com espíritos e coisas assim. Isto não. Isto é mão de cinco dedos, olhem para o que aqui o Fumigas vos diz. Não duro muito, mas sei o que digo. Já nem me faço ao mar, estou agora para aqui caído a um canto e não ponho a vista nos motores que me pertencem por vários dias de cada vez, mas sei do que falo, e não sou um falinhas mansas tampouco.”
O OME que disse estas palavras era, de entre eles, aquele no qual as características de OME DO MAR mais se acentuavam. Podemo-lo considerar o sábio, o dono dos barcos em que trabalhavam, ou seja, o patrão – ou até o avô daquela família, se é que isto é uma família. Todos o escutavam com consideração e respeito. O outro OME, o tal que se chamava Zé, levantou os olhos para o mar, um pouco desconfortado pelos pensamentos que pairavam entre eles e pelo vendaval que varria as ondas lá para o fundo.
“Mas, ó ti Fumigas”, começou ele, e empregou o vocabulário que usam no telejornal, que por vezes se torna útil, “então quem são os suspeitos de culpado? E os arguidos de defesa, já apareceram? Quem é o homicida precisado?”
Os outros abanaram as cabeças, santa paciência. Houve até quem se risse.
“TÁ CALADO, ZÉ, E OMICIDA É QUEM MATA UM OME!”, irrompeu o Manel, sem perder tempo, “NÃO VÊS QUE A CONVERSA É DE GENTE GRANDE?”
E logo disse o Tó, do seu canto:
“AH POIS É! É UMA CONVERSA DE OMES!”
Ao que o Zé não teve remédio, teve de assentir e encolher a cabeça. Assim que este se calou, o silêncio deu a palavra ao Fumigas, que se preparava para falar e dizer algo digno de ser dito.
“Não gosto do que se anda por aqui a passar. Não sou abutre que deseje o mau agoiro de toda a gente, mas também não sou nenhum pinto que para aí ande a esgadanhar o bico na bosta dos outros. OMES, isto cá para mim cheira-me a esturro, e daqueles que cheiram pouco, mas são grandes esturricados quando chega a hora de os ver. Sei que hoje não há ninguém no mar, em honra do velho Tone da Silva, que morreu esta quinta, sei disso, e isso agrada-me, pois cá para mim, hoje de manhã, senti um arrepio, daqueles que são a parte agoirenta em mim, daqueles que me dizem que algo ruim está prestes a acontecer, e logo hoje! Mas estou tranquilo, sim, estou tranquilo, nenhum dos meus moços pôs o pé na água hoje nem há-de pôr! Honra seja feita ao Tone da Silva! Qualquer dia junto-me eu a ele, e aos OMES que já abalaram deste mundo para um melhor. Muitos deles eram meus amigos, e eu próprio já me sinto com um pé dentro e outro fora.”
“Ó ti Fumigas, acalme-se, o ti está é nervoso! Veja lá o que diz! Não misture uma coisa com a outra! Lá porque o seu amigo Tone da Silva foi para as lotas do Criador, e lá porque está ressentido com isso e tem maus presságios ao acordar, não dramatize tudo ao ponto de dizer que haverão terrores no mar! Isso é você, que está há mais de vinte anos em terra, e julga que o mar é um bicho-de-sete-cabeças!”
Fumigas deu um olhar triunfante ao Manel.
“Aí é que está, Manel. O mar É um bicho-de-sete-cabeças.”
Assim que se gerou o silêncio de novo, e os OMES se concentraram na sua porção da rede de pesca, que desemaranhavam, um OME lá mais para diante resolveu dizer algumas coisas de sua justiça.
“Ó ti Fumigas, então o que faz o QUIM PESCAS no mar a esta hora?”
Petrificaram todos. Olharam para o ti Fumigas, com receio pela sua saúde, e o Manel saltou-lhe para cima no segundo seguinte, porque o velho tombou para o chão, aparvalhado da vida. Manel não aguentou sem desatar a berrar com o outro imbecil.
“OLHA O QUE DIZES! ALGUÉM TE ENCOMENDOU O SERMÃO? NÃO TE PROIBIRAM DE FALAR NO QUIM PESCAS EM FRENTE AO TI FUMIGAS?”
O descuidado ficou pálido.
“Tinha-me esquecido.”
Fumigas tossia e balbuciava, dizendo:
“Maldição! A desgraça abateu-se sobre a nossa terra! Que o QUIM PESCAS não vá de encontro ao Pai de Todas as Coisas antes de mim! Se não fizer, é bom que eu morra, porque senão eu próprio o matarei! Não foi ele avisado do dia de luto? NÃO FOI?”
Voltou a sentar-se, a muito custo, com o coração septuagenário aos pulos. Manel tentou reconfortá-lo, lançando um olhar de raiva para o filho da grandessíssima que teve a brilhante ideia de dizer aquilo da boca para fora.
“Ti Fumigas, tenha lá calma, o QUIM vai voltar seguro. Vamos à cerimónia honrar o Tone da Silva. Não pense no QUIM. Ele é um valdevino. Deixe-o onde ele está. Não foi por falta de aviso.”
“E porque está ele lá, Manel? Diz-me porquê”, disse Fumigas, muito mais paciente, como se os seus reminiscentes batimentos cardíacos ainda procurassem uma razão no meio daquilo tudo.
O Manel, lá tinha de ser, disse a verdade que escondera do velho.
“Pelo que ele me disse, não é sentados nos bancos da igreja que vamos honrar o OME que perdemos, mas sim no alto-mar a fazer o que fazemos melhor. Ele não foi ao mar para pescar. Foi prestar uma homenagem.”
QUIM PESCAS JÁ ESTAVA TODO ENCHARCADO, e lá voava, como os pescadores podem voar, por entre o mar em tempestade vinda do Inferno, nos altos mares de que todos falam e sobre os quais muitos outros têm pesadelos, entre o barulho e o horror. Dançava amarrado aos cabos que conseguia manter na mão, sempre entre o abismo e o abrigo; e o mar, em fúria, tentava despedaçar-lhe a embarcaçãozinha, aquela mesma que trazia, a letras garrafais, escrito, na lateral do casco:
“LINDONA MARIA”
E NÃO HÁ MANEIRA DE CHAMAR AJUDA, NÃO HÁ TEMPO SEQUER PARA LIGAR O RÁDIO DE BORDO, DE DESCALÇAR AS BOTAS OU ATÉ MESMO DE VESTIR UM COLETE SALVA-VIDAS, a tempestade é tão estupidamente violenta que QUIM PESCAS só consegue dizer adeus à sua LINDONA MARIA com a qual apanhou tanto peixe e rezar um pai-nosso, e seja feita a sua vontade, lá com estas tempestades não consegue um OME safar-se, raios partam lá o OME que governa tudo. COMOVIDO E CONFORMADO, BRADOU QUIM PESCAS AOS SETE VENTOS:
“ADEUS MUNDO, ADEUS MAR, ADEUS LINDONA! ADEUS AOS OMES DO MAR, ADEUS AOS MEUS OMES DA TERRA!”
QUIM só teve tempo de vislumbrar uma grandessíssima onda a abater-se sobre si antes de perder os sentidos.
(…)
Nós só saberemos o que aconteceu ao QUIM PESCAS no segundo episódio das OMAVENTURAS, que será aqui publicado no dia 15 de Janeiro!
NÃO PERCAM O PRÓXIMO OMIPISÓDIO, QUE NÓS TAMBÉM NÃO!


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